Este artigo pode soar polêmico, eu sei, e eu corro o risco de ser odiado, mas acho que vale a pena falar sobre esse ponto de vista. Só existe crescimento pessoal quando somos confrontados com argumentos novos e, se todos concordam, não existe debate, não é mesmo. Foi por isso que decidi falar.

Uma das buscas mais incessantes dos escritores, principalmente nestes tempos em que vivemos, é pela representatividade. Isso principalmente porque autores tidos como clássicos, hoje são acusados de machismo, racismo e misoginia por suas histórias serem centradas em ideias ultrapassadas e totalmente equivocadas. Eu acho essa análise válida e extremamente justa.

O problema é que ela criou um monstro que se alimenta dos nossos esforços em vencê-lo. E este monstro não pode ser derrotado. É por isso que, ao meu ver, embarcar na representatividade é um caminho sem volta.

E aí vem o primeiro problema. Já recebi e-mails de pessoas que diziam que eu deveria escrever mais sobre negros, asiáticos, mulheres e árabes. Mas…O problema é que eu não pertenço a nenhum destes grupos. Esta não é a minha vida. Isso quer dizer que eu não devo ter personagens assim em meus livros? É óbvio que não. Mas minhas histórias nunca serão centradas nestes temas. Porque eles não me representam. E meus livros são sobre mim. Como os seus livros são sobre você.

Eu posso escrever um livro sobre uma mulher negra. Mas nunca serei capaz de entender como uma mulher negra se sente e como ela é vista pela sociedade. Só terei a visão estereotipada dessa personagem, por mais que eu entreviste centenas de mulheres nesta situação. E eu não seria representativo nem com as mulheres negras e muito menos comigo.

E eu escrevo porque quero me ver representado em algum lugar. E as pessoas leem porque também querem. 

Pantera Negra é um bom exemplo. Foi criado pelo Stan Lee, um homem branco, americano e rico. Mas a história trata da cultura africana e da luta do povo negro. E quando foi que o personagem atingiu seu ápice? Quando foi reestruturado por escritores negros e africanos com essa bagagem. E é justamente por isso que o filme é genial. Houve uma representatividade verdadeira. Não importa quem criou o personagem. O importante é quem conseguiu dar representatividade para ele.

Minhas histórias estão cheios de personagens que são pessoas como eu. Essa é a mais pura representatividade. A minha, pelo menos, mas é óbvio que ela não é suficiente. Precisamos de mais pessoas pessoas escrevendo, de mais pessoas com oportunidade de contar suas histórias. Isso é a verdadeira representatividade. 

Isso não quer dizer que brancos não devem escrever sobre negros e vice versa. Mas seria ótimo ter mais autores negros escrevendo sobre suas vivências, suas fantasias, seus medos e seus desejos. Eu também queria saber como os asiáticos veem o mundo além do kung fu e do karatê. Mas se tiver kung fu e do karatê vai ser ótimo também. Eu também queria ver mais mulheres escrevendo histórias sobre mulheres , sobre homens e sobre o que mais elas quiserem.

Parece utópico? Não é. Isso parte de cada um. Não precisamos de grandes editoras para nossos livros ou produtoras hollywoodianas para nossos filmes. A internet deixou as coisas mais justas e precisamos aproveitar. As condições já foram criadas. Está na hora de desfrutar de cada uma delas.

E eu acho que é por isso que eu gosto tanto de citar um trecho de uma música da Legião Urbana chamada Marcianos invadem a Terra. Saca só:

Ora, se você quiser se divertir, invente suas próprias canções.

Existe representatividade maior do que você poder escrever suas próprias histórias? Sinceramente, eu não conheço.