GRANDES MENTIROSOS: a verdade que nunca te contaram sobre os melhores escritores

Talvez você nunca tenha pensado desta forma, mas você é um grande mentiroso (ou mentirosa). E, se ainda não for, precisa se tornar o quanto antes. Essa é uma parte fundamental da profissão do escritor, uma vez que, para contar uma boa história, ele precisa usar artifícios bem específicos, como tornar real um fato que nunca aconteceu.

Todo escritor lida com a mentira. Pare um pouco para pensar: nós escrevemos sobre pessoas que não são reais, fazendo coisas que não aconteceram, em lugares que não existem. E fazemos tudo isso como se fosse verdade. Agimos como se esses personagens existissem e pudessem pensar ou sentir.

Nós sempre aprendemos que mentir é errado, mas, nesse caso, a mentira é aceita. Escritores são mentirosos por profissão. Mas não tem problema, porque fazemos isso, contamos essas mentiras, para comunicar coisas que são verdadeiras. Há um motivo para tudo isso. A mentira dos contadores de história tem propósito maior e é assim desde sempre.

Usar certas mentiras em uma história inventada é um dos principais caminhos para alcançar uma verdade humana que não poderia ser atingida de outro jeito. É aquilo que aprendemos a chamar de “moral da história”, nos contos infantis.

E dessa mesma forma que o escritor mente com consciência, o público também é enganado conscientemente. Quando lançamos ao mundo uma história, contamos com uma certa vinda do público. Isso quer dizer que o leitor precisa estar disposto a aceitar as mentiras que você está contando e acreditar nelas como se fossem verdades, mesmo sabendo que elas nunca aconteceram.

Uma das principais formas de fazer isso é caprichar na verossimilhança. Quanto mais reais os seus personagens parecerem, mais as pessoas acreditarão na sua história.

Um bom exemplo é a obra de Tolkien. Em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, temos um mundo completamente imaginário, habitado por criaturas como hobbits, elfos, orcs, trolls, dragões e muitos outros. Mesmo assim, a obra é crível. Vemos a Terra Média e temos a sensação clara de que ela existe. De que poderíamos viver lá.

Como Tolkien conseguiu isso? Acrescentando elementos que fazem parte do nosso mundo e que, por isso, são críveis no mundo imaginário. Apesar das coisas mágicas e maravilhosas da Terra Média, há elementos que são do mundo real. O mesmo vale para os personagens. Os elfos, mesmo vivendo por milhares de anos, possuem comportamentos humanos, que fazem com nos identifiquemos com suas atitudes.

Verossimilhança é diferente de verdade. Você não precisa dizer a verdade sempre que estiver escrevendo uma história. Mas precisa dizer o que quer que seja de forma verossímil. Só assim transmitirá a realidade que todos desejam. Não importa o quão estranho o mundo da sua história seja, mas ele deve sempre parecer real para o seu leitor.

Agora eu vou te dar cinco dicas para se tornar um grande mentiroso… e um escritor melhor.

Foque nos sentimentos e nas emoções

Se o seu personagem precisa lutar com um dragão ou com uma outra criatura que você criou, foque-se em detalhes que criam empatia. Você pode descrever o bater de asas do dragão, mas falar sobre o frio que gela a espinha do personagem ou sobre o medo de ser rasgado pelos dentes da fera pode ser muito mais eficiente. Todos sentem medo nas mais diversas situações. O medo nos une e você deve usar esse e outros sentimentos para tornar uma fantasia real.

Abuse dos detalhes sensoriais

Se os seus personagens estão passando por uma caverna inventada, pode ser que você não consiga transmitir detalhes o suficiente para tornar o local crível. E, se colocar detalhes demais, pode acabar deixando a leitura maçante ou soar como se estivesse enchendo linguiça. Por isso, uma das melhores formas de criar verossimilhança é utilizar detalhes sensoriais, como cheiros, barulhos e sensações. Fale sobre o cheiro que os personagens sentem dentro da caverna, sobre o barulho da água caindo ao redor, sobre a frieza do toque nas paredes. Isso colocará o seu leitor dentro da cena, junto com os personagens.

Use elementos familiares ao leitor

Você, enquanto narrador, pode fazer comparações e analogias para que o leitor entenda o que está acontecendo. Ao mesmo tempo, não precisa criar absolutamente tudo em seu universo imaginário. Usando Tolkien como exemplo novamente, temos boas doses de realidade na fantasia. Os nomes dos meses da Terra Média são os mesmos dos nossos, por mais que isso soe impossível, já que nossos meses estão ligados a acontecimentos verdadeiros (agosto vem do imperador romano Augustus). Mas Tolkien sabia que criar novos nomes para os meses só deixaria o mundo mais confuso.

Cuidado com os erros básicos

Se você está escrevendo sobre um passei no parlamento de Londres, precisa estar atento aos detalhes reais do prédio. Precisa trazer elementos comuns para leitores que já estiveram naquele local. Ao mesmo tempo, se você está escrevendo sobre locais que não existem, precisar criar elementos que tragam familiaridade, mas que estejam de acordo com as regras que você mesmo definiu para o seu mundo. Se você está escrevendo sobre um povo que ainda não desenvolveu a engenharia, não pode criar um grande construção com centenas de metros de altura… A menos que essa construção misteriosa seja o mistério que guia a trama da sua história.

A verdade é o tempero da boa mentira

Todo escritor usa a mentira como matéria-prima para suas histórias. Mas isso é o meio para chegar em um fim importante, que traga uma mensagem poderosa, seja ela qual for. Por isso, a verdade precisa ser inserida em pequenas doses, costurando cada um dos elementos. A verdade deve ser o tempero que dá cor e sabor para suas narrativas e que torna tudo crível, até mesmo o mais fantástico dos elementos.

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Uma boa forma de aprender com escritores que misturaram bem mentira e verdade é ler livros que abordam a temática “e se”. É o caso de O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que mostra um mundo onde os nazistas venceram a II Guerra Mundial. Há vários elementos reais misturados com outros que são fantasiosos, decorrentes da vitória de Hitler. A Graphic Novel Watchmen, de Alan Moore, também pode ser uma ótima fonte de pesquisa, por mostrar o mundo real habitado por heróis e super-heróis e até mesmo uma vitória dos Estados Unidos sobre o Vietnã.

Então, prepare suas mentiras e comece a escrever. O mundo precisa de você (e isso, definitivamente, não é mentira).


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