Nós podemos (e devemos) ter vários ganchos dentro das nossas histórias. Eles servem para fisgar o leitor e fazer com que ele queira acompanhar os acontecimentos até a conclusão. Devemos entender que os leitores são como peixes muito espertos, que precisam ser capturados. Eles não caem em qualquer armadilha e não se deixam enganar por iscas falsas. É por isso que nenhum leitor vai se entregar de corpo e alma para a sua história a não ser que você tenha apresentado para ele um gancho irresistível.

Hoje, vamos falar do gancho mais importante para um livro, independente do gênero da trama. O gancho de abertura. Esse tipo de gancho é aquele contido logo no início do seu livro e que é responsável por fazer o leitor continuar lendo. Para que ele funcione corretamente, é importante que esteja no primeiro parágrafo da história ou, ao menos, na primeira página.

De uma forma bem resumida e simplória, podemos dizer que um gancho de abertura é uma informação importante e interessante que cria (consciente ou inconscientemente) uma pergunta na cabeça do leitor. De forma também resumida e simplória, esta pergunta será algo parecido com “o que vai acontecer?”, “como isso vai terminar?” ou qualquer equivalente.

Você precisa fisgar o seu leitor, para que ele não seja capaz parar de ler a sua história até que ela tenha sido terminada. E não se engane com isso, porque se você não for capaz de conectar os seus leitores com a sua história logo no primeiro capítulo, como bons peixes que são, eles nadarão para o fundo do oceano e você não será capaz de encontrá-los novamente.

Se acompanha as publicações deste site e os vídeos do meu canal no YouTube, você deve saber que uma boa introdução de história deve apresentar três elementos: personagem, cenário e conflito. O quanto antes isso ficar claro para o leitor, melhor será. Mas estes três elementos, por si só, não representam o gancho. O gancho só vem quando o leitor se entrega e pergunta “o que vai acontecer?”. É a forma como você trabalha estes elementos e a ordem em que decide apresentar as informações que fará toda a diferença para atrair o leitor.

Vou apresentar um exemplo para deixar as coisas mais fáceis. Eu gosto muito de citar o livro A Metamorfose, de Franz Kafka, porque ele tem um dos melhores inícios de todos os tempos. Olha só:

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso.

Impossível ler essa única linha e não querer saber o que vai acontecer, você não concorda? Isso porque Kafka escolheu cortar todas as apresentações e começar diretamente com o clímax da história. Não há apresentações. Não há rodeios. Gregor Samsa acorda e é um inseto gigante. Simples assim. Porque? Não sei. Como isso aconteceu? Não sei. O que vai acontecer a partir daí? Não sei. Só lendo para saber.

Kafka nos apresenta o personagem (Gregor Samsa), o cenário (a cama e o quarto, por tabela) e o conflito (a metamorfose em um inseto monstruoso). Tudo isso em uma única linha. E, ao mesmo tempo, ainda nos deixa com a pulga atrás da orelha.

Claro que precisamos destacar que isso funcionou para este livro, mas não quer dizer que funcionará para todos. Começar a história com o personagem acordando depois de um pesadelo se tornou um dos maiores clichês da literatura e do cinema, possivelmente por causa trecho, e isto é algo que eu tenho certeza que você não vai querer para a sua história. Ao mesmo tempo, ótimos livros conseguiram prender seus leitores sem apresentar todas as informações logo na primeira frase. Há outras construções, estruturas e formatos bem úteis neste aspecto.

Nos próximos parágrafos, vou te apresentar três tipos de ganchos e dicas de como você pode usar essas idéias para fisgar os leitores em suas histórias. É claro que estas não são as únicas maneiras, mas podem ser um norte caso você esteja perdido ou empacada, sem saber como iniciar a sua trama.

1. O gancho do “por que”

Certamente, este é o mais básicos dos ganchos de abertura. Ao mesmo tempo, é o mais importante de todos, sem sombra de dúvidas. É aquele que desperta uma sensação imediata no leitor, fazendo com que ele se envolva na trama e pergunte: porque diabos isso está acontecendo?

Os livros mais famosos do Kafka seguem esse modelo. Em A Metamorfose, temos um caixeiro-viajante que se transforma em um inseto. Em O Processo, temos um bancário que acaba sendo preso e sujeito a um longo e incompreensível processo por um crime que ele mesmo não sabe qual é.

Eu desafio você a tentar ler a primeira página de qualquer um destes livros e não querer saber como a história vai terminar.

Vale destacar que todos os ganchos precisam despertar um “por que”, então este tipo condensa todos os outros. Mas vamos tratar os próximos não como subgêneros deste primeiro, mas como construções próximos. O importante é lembrar que não existem regras. Você é livre para fazer absolutamente o que quiser com a sua história.

2. O gancho da “Catástrofe”

Muitas histórias usam esse artifício para prender a atenção do leitor, ainda que da maneira errada. Catástrofes, de uma forma geral, despertam a curiosidade dos seres humanos desde sempre. Tanto que se transformaram em um gênero cinematográfico extremamente lucrativo. Isso talvez se explique pelo fato de que o homem enfrenta a natureza desde os primórdios da civilização. Mas não sabemos ao certo o motivo. O que sabemos que é elas rendem boas histórias.

Para entender este tipo de gancho, imagine que um grande terremoto atingiu o Brasil. Você deve saber que nosso país não costuma sofrer esse tipo de ação da natureza. Mas o terremoto ocorre e centenas de prédios desabam, crateras se abrem pelas ruas e muitas pessoas morrem. Como poderíamos começar a contar essa história? Há três formas de fazer isso.

A mais comum, seria começar alguns dias antes, apresentar os personagens, o protagonista e sua ligação com este tipo de evento. Depois disso, talvez depois de 10 ou 15 páginas, o terremoto finalmente ocorre.

A segunda, um pouco mais eficiente, seria começar diretamente no terremoto, mostrando o colapso das construções e o desespero da população. Essa abordagem será mais poderosa quando o assunto é prender a atenção do espectador, porque o coloca diretamente na ação, sem rodeios e sem explicações desnecessárias. Haverá tempo para isso mais tarde, quando o leitor já estiver fisgado pelos personagens e pelo conflito.

A terceira forma, e a melhor delas, na minha opinião, seria começar imediatamente depois do fim do terremoto. Não falo de dias depois, falo de minutos depois. A terra já tremeu. Os prédios já caíram. Centenas de pessoas já morreram. Mas algumas ainda estão vivas, feridas e assustadas em meio aos escombros. O seu protagonista é uma destas pessoas e ele está lá, sem saber o que ocorreu e como se livrar daquela situação.

Acredito que você entendeu o valor de contar algumas explicações e começar neste momento. Esta escolha fará com que não uma, mas centenas de perguntas brotem na mente dos seus leitores, assim como na cabeça dos seus personagens. O que aconteceu? Foi um terremoto mesmo? Quem é o protagonista? Como ele sobreviveu? Qual a ligação dele com este evento?

3. O gancho do “Perigo Iminente”

Se, por um lado, ver uma grande tragédia se materializando na sua frente pode ser um grande problema, a expectativa de que ela chegue também pode criar uma grande tensão. Começar a história com o anúncio de um grande perigo aguça a curiosidade do leitor, principalmente quando ele entende que aquilo pode mudar os rumos do planeta, de um país, de uma cidade ou até mesmo de uma única pessoa (o protagonista, obviamente).

***

Resumindo toda a história, espero que tenha ficado claro que os ganchos de abertura são alguns dos elementos que mais trabalham em favor da sua história. Se você conseguir dominá-los da forma correta, sem tentar ludibriar o seu leitor não só poderá atrair mais pessoas para apreciar a sua obra, como será capaz de reutilizar essa técnica dos ganchos ao longo da sua história, mantendo os seus leitores de olhos grudados nas suas páginas.

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Sobre o Autor

Matheus Prado
Matheus Prado

Matheus é jornalista, escritor e cineasta. Acredita que a vida é um oceano profundo e que devemos nos aventurar muito além da superfície.

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