#02 – DOCUMENTÁRIO: delimitando o tema para começar sua gravação

Produzir cinema é uma tarefa árdua, seja ficção ou não-ficção. Mas a parte mais difícil, principalmente para o cineasta, é a delimitação do tema. Isso porque a maioria dos novatos quer abraçar o mundo sem saber que isso representa um trabalho humanamente impossível de ser realizado. É por isso que é importante afunilar as possibilidades máximo possível.

Isso porque qualquer fato que você queria documentar, porque mais simples que seja, vai exigir horas e mais horas de pesquisa, outras várias horas de captação e incontáveis dias de seleção de cenas e montagem.

Por isso, tenha em mente uma verdade absoluta que as pessoas insistem em ignorar: quanto maior o tema, mais problemas o documentarista terá na hora de escrever o roteiro, gravar e editar o filme. Ao mesmo tempo, quanto mais específico o cineasta for, mais será capaz de criar um produto com qualidade, informações relevantes e, mais que tudo, construir uma grande história.

Vamos usar um exemplo bem fácil para você entender: futebol.

Todo brasileiro gosta de futebol. Agora vamos dizer que você quer gravar um documentário em longa-metragem sobre futebol. Como esse tema é amplo, o documentarista vai ter que falar da criação do futebol há milhares de anos pelos chineses, até sua modernização. Também não poderá esquecer de falar da chegada do futebol no Brasil, da criação dos times que ainda existem, dos que já fecharam, dos campeonatos nacionais e dos vários espalhados pelo mundo, da vida dos principais jogadores do Brasil e de fora e por ai vai.

Tem noção de quanto tempo isso vai consumir da sua vida? Anos de trabalho apenas na pesquisa inicial.

Agora, vamos imaginar que o documentarista pense um pouco mais e decida afunilar um pouco a ideia. Agora o foco não será o futebol em si, mas os times de futebol brasileiros. As coisas vão ficar bem mais simples, só que ainda temos centenas de times no Brasil, entre profissionais e amadores. Como falar de todos? Então ele afunila um pouco mais e chega no time X, da cidade Y, de estado Z.

Parece mais fácil? E é. Mas ainda tempo problemas. Vamos imaginar que esse time existe há 50 anos. Se ele está de pé até hoje, isso quer dizer que existem centenas de personagens que fizeram ou que ainda fazem parte da parte da história do clube, desde a sua fundação até o momento atual. Fora aqueles que contribuíram indiretamente, como jornalistas, torcida organizada e muito mais.

Para se livrar de um fumo gigante, o diretor pensa um pouco mais e decide afunilar ainda mais. Então ele chega no ano de 2015. Nessa data, o time venceu o campeonato mais importante do seu estado. Ficou mais fácil, né? Claro. Mas… Uma ano equivale a 365 dias de histórias. Ele vai falar sobre todos esses dias? Aconteceu alguma coisa interessante durante todos esses dias? E o mais crucial: ele estava presente em todos estes jogos para filmar as cenas? Ou ele conseguiu imagens de arquivo de todos esses jogos para compor a sua obra? Eu aposto que não.

O documentarista, esperto como só ele, decide afunilar ainda mais e chega no último jogo de 2015, quando o time X conquistou o grande campeonato. Agora sim nós temos um documentário de verdade. Isso porque o jogo passou na TV e tem imagens de todos os momentos disponíveis na internet. Talvez o próprio documentarista estivesse no jogo, lá na torcida, e ele mesmo possui uma grande quantidade de vídeos e fotos. Isso faria dele um personagem da trama, seguido o modo participativo.

Entendeu o que eu quis dizer? É claro que esse foi um exemplo esdrúxulo, mas ele também serve para explicar como a delimitação e o afunilamento das ideias são essenciais para o bom funcionamento de um documentário. Muitos assuntos significam muitos problemas. Poucos assuntos significam grandes ideias e profundidade narrativa. Menos é mais.

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