Em um dos artigos recentes deste site, citei um trecho da Masterclass do Dan Brown (O Código Da Vinci), onde ele apresenta o conceito conhecido como Arma de Chekhov. Algumas pessoas me mandaram e-mails perguntando sobre essa ideia e foi por isso que decidi aprofundar um pouco mais as ideias sobre este tema.

Quando usado de forma assertiva, este conceito consegue deixar a história surpreendente e, ao mesmo tempo, confortável par ao leitor. Ela fica verossímil, porque afasta a ideia de Deus Ex Machina, que é quando as coisas simplesmente se resolvem do nada.

E, ainda que a técnica utilize a antecipação para funcionar perfeitamente, ela consegue deixar a trama mais verossímil.

Quem é esse tal de Chekhov?

Anton Pavlovich Chekhov foi um escritor russo, nascido em 1860 e morto em 1904, aos 44 anos. Ainda que tenha atuado como médico durante um longo tempo, seu reconhecimento veio quando passou a se dedicar a carreia de autor e dramaturgo.

Seus trabalhos se concentravam menos no enredo e mais no estudo dos personagens. Justamente por isso, é considerado um dos maiores contistas da história. A maioria de suas obras abordava temas como depressão e tristeza profunda, o que fazia com que seus leitores entrassem de cabeça nas mentes dos personagens.

Suas obras mais conhecidas são A Gaivota, Tio Vânia, As Três Irmãs e O Jardim das Cerejeiras, além de diversos contos, como A Dama do Cachorrinho.

Entendendo o conceito

Não é muito difícil entender ao que se refere o conceito da Arma de Chekhov. Podemos resumir dizendo: só coloque em sua história as coisas que realmente forem uteis para a trama.

Ou: não encha linguiça.

Nas palavras do Dan Brown:

Se você pendurar uma espingarda na parede, no capítulo um, é melhor que alguém a use até o final do livro.

Basicamente, o que o conceito diz é que: se algo foi apresentado na cena, ele deve ser importante para a mesma. Você não pode (ou não deve) colocar os seus personagens para conversar por horas sobre futebol se isso não tiver alguma relevância verdadeira para a trama.

Com certeza, você já deve ter visto este conceito sendo aplicado na prática. Muitos filmes/livros mostram o personagem sendo confrontado por uma situação especifica logo no inicio da trama, que ele não consegue superar. Pode ser subir em uma árvore, saltar de uma cachoeira ou acertar o alvo com uma arma. Qualquer coisa.

No fim da história, ele acaba sendo apresentado para a mesma situação e, a única forma de vencer o inimigo é superando aquela mesma situação do inicio.

Em outros casos, o conceito vem em algo que, a primeira vista, parece ser irrelevante, mas se mostra muito importante depois. Nas primeiras cenas do filme ”De Volta para o Futuro”, vemos um personagem entregando um panfleto com informações sobre a Torre do Relógio danificada por um raio. No fim da história, essa informação se torna crucial para o protagonista.

Por que eu devo usar?

O primeiro motivo é óbvio: suas histórias ficarão mais interessantes e muito mais enxutas. As arestas serão cortadas e vai sobrar mais tempo para contar uma história realmente relevante, que cativa os leitores.

O segundo motivo é menos óbvio, mas tão importante quanto. A Arma de Chekhov desperta uma curiosidade primordial nos seus leitores/espectadores, fazendo com que eles passem a agir como detetives, tentando prever como cada elemento apresentado vai ser usado mais tarde.

Essas pistas que são entregue pelo autor estimulam o espectador a continuar acompanhando a história de forma intuitiva.

Red Herring (arenque vermelho)

Também temos um conceito conhecido como Red Herring (arenque vermelho, em tradução literal, mas pode esquecer isso!). Ele representa quase a mesma coisa que a Arma de Chekhov, só que ao contrário. Ou seja: você apresenta pistas e elementos que, na verdade, são falsos e servem para iludir o leitor.

Histórias de romance policial, assassinato e mistério estão repletas deste elemento, porque eles servem para fazer o espectador desconfiar de todos.

Numa trama onde o detetive tenta encontrar um serial killer, muitas vezes o autor coloca alguém na cena do crime, que se torna o principal suspeito. Tudo nos leva a acreditar que ele realmente cometeu o assassinato. Mas, se de fato for ele, acabamos ficando decepcionados, porque estava fácil demais.

O fato é que queremos Red Herrings quando consumimos essas histórias. Não queremos coisas óbvias. Ao mesmo tempo, também não queremos ser surpreendidos por algo que simplesmente brota no momento final, como uma arma secreta ou um aliado super poderoso.

Estes dois conceitos andam lado a lado e são quase inseparáveis. E quando você conseguir usá-los com habilidade, seus leitores/espectadores não conseguirão fazer outra coisa que não seja consumir suas histórias.

Conclusão

Embora seja conceitos realmente importantes e consolidados tanto no cinema quanto na literatura, preciso dizer o mesmo que digo todas as vezes que apresento esse tipo de dica: não há regras quando se conta uma história.

Tanto a Arma de Chekhov quanto o Red Herring são elementos que podem ser utilizados para deixar sua história mais interessante, mas isso não quer dizer que elas não serão interessantes sem eles.

A melhor forma de saber se estas ideias se aplicam para as suas histórias é utilizado a exaustão. Treine em contos e histórias menores e mostre para os seus amigos e leitores betas. Veja como eles reagem.

E não fique apegado a regras o conceitos unicamente porque eu (ou qualquer outra pessoa) te disse que eles são interessantes. Use quando eles forem uteis para a história que você quer contar. Dentre outras coisas, isso certamente vai impedir que você se frustre.

É isso. Nos vemos em breve! 😀

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Sobre o Autor

Matheus Prado
Matheus Prado

Matheus é jornalista, escritor e cineasta. Acredita que a vida é um oceano profundo e que devemos nos aventurar muito além da superfície.

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