Gosto de dizer para as meus alunos que as histórias são cíclicas. Desde que começamos a usá-las como forma de ensinar, emocionar e divertir, elas seguem – basicamente – a mesma fórmula, baseada em uma estrutura que sobreviveu ao longo dos milênios.

O mitologista Joseph Campbell foi o primeiro a notar esses padrões e seus estudos ficaram mundialmente famosos no livro “O Herói de Mil Faces”. Segundo Campbell, todas as histórias seguiam um mesmo template, que ele chamou de monomito.

Pouco tempo depois, o roteirista de Hollywood Christopher Vogler preparou um memorando baseado nas ideias de Campbell, chamado de “The Writer’s Journey: Mythic Structure For Writers”. Durante um período, o memorando foi usado como um guia interno para os roteiristas dos estúdios Walt Disney, até ser finalmente lançado ao público com o título de “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Escritores”, tornando-se rapidamente um bestseller.

Você certamente conhece alguma destas obras, já que eles influenciaram – e ainda influenciam – todos que desejam escrever de forma profissional. Isso porque apresentam ideias de estrutura que facilitam o trabalho, quando usadas corretamente.

Neste artigo, vou te apresentar mais uma estrutura. A mais simples e, ao mesmo tempo, a mais importante que existe. Eu chamo de o template mais simples que existe para uma história.

Embora diversas em forma a objetivo, as histórias seguem sempre uma estrutura básica. Essa estrutura básica pode ser invertida, mutilada, achatada, esticada, corrompida, mas… Ainda assim, NUNCA pode ser ignorada. Simplesmente porque é impossível.

Conhecendo a estrutura básica

Há muitas formas de tirar suas ideias do papel. Exercícios e leituras frequentes podem ajudar, mas, de forma objetiva, a melhor maneira de escrever é… escrever.

Muitas pessoas ficam completamente paralisadas quando se veem diante de uma página em branco, porque acham que a primeira versão do texto já precisa ser bela e poética. Mas isso não é verdade.

Como uma casa que começa a ser construída pelas bases e pelo alicerce, uma história, seja ela ficção ou não, deve ser planejada e rascunhada antes de ser finalizada. A melhor forma de fazer isso é regredindo para um formato simples e reconhecível.

A estrutura mais básica de qualquer história segue a seguinte fórmula:

  • O herói quer/precisa de alguma coisa;
  • Um oponente tenta impedir que ele consiga;
  • O herói enfrenta seus maiores medos;
  • O herói consegue/fracassa em seu objetivo.

Observe que o herói pode ser uma heroína, um cachorro, um carro, uma bola de basquete, ou qualquer outra coisa que você consiga imaginar. E também é preciso entender que ele pode ou não conseguir o que deseja no fim da história, mas deve buscar intensamente. A conquista fica a critério da sua imaginação.

Como usar a estrutura

A melhor forma de escrever sem a pressão de ter que soar perfeito logo de primeira é utilizar tópicos e blocos de texto. Neste aspecto, você não precisa produzir o texto final, mas uma ideia vaga de como ele ficará, para reescrever logo depois.

Vamos pensar em um exemplo. Imagine um vampiro disposto a sugar o sangue de uma vítima em uma noite de lua cheia. Mas, por obra do destino, ele está com uma baita dor de dente. Ao mesmo tempo, está morrendo de fome.

Adaptando essas ideias para a estrutura básica, temos:

  • Um vampiro precisa sugar sangue porque está com muita fome;
  • Uma terrível dor de dente o atinge, fazendo ter medo de agir;
  • Depois de uma exaustiva batalha interna, ele enfrenta seus medos;
  • O vampiro decide sair pela noite em busca de uma vítima.

Tudo bem. Pode me dizer que este foi um exemplo cretino, mas o objetivo era só te mostrar a estrutura em uso. Claro que eu espero que você capriche um pouco mais quando for a sua vez de escrever.

Mas, continuando a história, agora nós já temos uma base de como a história do vampiro vai se desenrolar. Porém, ainda precisamos decidir muita coisa. Por isso, vamos transformar cada um dos tópicos em um bloco de texto. Quanto mais informações, melhor.

 Um vampiro precisa sugar sangue porque está com muita fome 

Vladilson era um jovem e corajoso vampiro. Havia acabado de acordar de um longo descanso de séculos e sentia-se renovado fisicamente. Ao mesmo tempo, estava tomado pela fome e sabia que precisava comer o quanto antes, uma vez que seu corpo clamava por sangue fresco.

 Uma terrível dor de dente o atinge, fazendo ter medo de agir 

Justamente no momento em que se preparava para sair de seu caixão, Vladilson foi acometido por uma dor de dente terrível. Sentia suas presas latejando de dor. Naquele momento, ele teve certeza de que deveria ter escovados os dentes séculos atrás, antes de ter entrado em seu caixão para seu sono de descanso.

 Depois de uma exaustiva batalha interna, ele enfrenta seus medos 

Vladilson passa longas horas considerando os prós e os contras de sair para uma caçada, mesmo com os dentes doendo. Por um lado, precisava comer. Por outro, a dor era tão intensa que ele sentia como se estivesse prestes a desmaiar. Pensou durante tanto tempo que o sol nasceu e se escondeu novamente. Quando a segunda noite caiu, ele já tinha uma ideia do que fazer.

 O vampiro decide sair pela noite em busca de uma vítima 

O temível Vladilson decide sair de casa em busca de uma presa. Mas tem um alvo certo em mente: um dentista. Decide que a melhor maneira de sair para se alimentar e ainda se livrar da dor é procurar algum que possa ajudá-lo em suas duas missões.

Sei que não vou ganhar um Oscar de melhor roteiro com a história do vampiro Vladilson. Mas tenho certeza de que você entendeu os conceitos. Bom os blocos de texto que desenvolvemos, vai ficar bem mais fácil criar novos personagens, novos conflitos e novos rumos para a trama.

Conclusão

Basicamente, o processo de estruturação de uma história começa como uma receita de bolo. Você segue um passo a passo, mas com um objetivo claro em mente: ser o mais criativo possível na segunda etapa.

Quando for escrever, tenha em mente que o primeiro passo deve ser introduzir a maior parte dos elementos que você vai precisar da história. Tente se lembrar de todos e faça com que eles tenham alguma função. Se estiver usando algo apenas por estética, deixe de lado.

Depois disso, introduza e desenvolva o conflito da história. Já estou quase careca de dizer que ler uma história sem conflito é tão prazeroso quanto sair para uma pescaria na Antártida usando apenas uma cueca box. Então, poupe seus leitores deste sofrimento e faça os seus personagens sofrerem.

Alguém ou alguma coisa deve tentar impedir seu/sua protagonista de atingir os objetivos. Sempre.

Por fim, resolva o conflito utilizando os mesmos elementos que você já introduziu no começo da história. Isso é muito importante. Nenhum item deve constar no texto se não tiver importância para a historia, você só estará acumulando gordura.

É por isso que, no próximo artigo, vou falar sobre um princípio chamado “A Arma de Tchekhov”, que vai te ajudar demais neste aspecto. Aguarde e confira.

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Sobre o Autor

Matheus Prado
Matheus Prado

Matheus é jornalista, escritor e cineasta. Acredita que a vida é um oceano profundo e que devemos nos aventurar muito além da superfície.

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