Matheus Prado

O seu protagonista é ativo ou reativo?

Sabe quando você lê uma história em que os personagens secundários parecem mais interessantes do que o protagonista? E eu não estou falando de casos como O Cavaleiro das Trevas, onde o vilão é tão incrível que rouba a cena. Estou falando de casos como Piratas do Caribe, onde o protagonista é tão desinteressante que acabamos esquecendo dele.

Eu sei que você já deve estar querendo me bater, mas entenda que o protagonista de Piratas do Caribe não é o Jack Sparow. Mas depois eu falo mais sobre isso.

Pois bem, o fato é que, nessas histórias, a narrativa acaba parecendo muito forçada e previsível, como se o universo estivesse conspirando para que as coisas acontecessem. Podemos teorizar muito sobre o que leva uma história a ser ruim. Mas as principais razões, quase sempre são: falta de conflito e protagonistas passivos. Hoje, vamos falar sobre a segunda opção.

Grave esse conselho na sua mente: protagonista tem que protagonizar.

Como você já deve saber, sou um amante do cinema e também um produtor audiovisual. Durante muito tempo, devorei livros de direção e roteiro para me aperfeiçoar. E foi num destes livros que aprendi algumas das lições mais valiosas de todas, com roteirista Syd Field. Segundo ele:

“Agir é fazer alguma coisa, reagir é deixar que façam. […] Muitos escritores inexperientes fazem coisas acontecerem aos seus personagens; eles reagem em vez de agir. A essência do personagem é ação”.

A essência do personagem é a ação. Não se esqueça dessa frase. Ela vale para todos os personagens, é claro, mas tem mais peso no protagonista. Por isso, releia todas as histórias que você já escreveu e analise os seus protagonistas. Preste atenção se eles fazem as coisas acontecerem ou se as coisas acontecem com eles.

Uma boa forma de entender essa diferença é analisar alguns casos famosos. Eu gosto bastante de analisar o oceano que separa a Rey, de “Star Wars: O Despertar da Força” da Jyn Erso, de “Rogue One: Uma História Star Wars”. Enquanto a Rey age o tempo todo, mesmo quando está sendo explorada e jakku, a Jyn simplesmente assiste enquanto o mundo toma forma a sua frente. São as outras pessoas que traçam o seu destino enquanto ela simplesmente aceita.

A Rey toma grandes decisões. Ela escolhe salvar o BB8. Ela escolhe não vende-lo. Quando ela descobre que o BB8 carrega um mapa que deve ser entregue ao Luke Skywalker, ela não pensa duas vezes: deixa sua casa para traz e foge do planeta com o Finn e o droid para encontrar a resistência.

Mas com a Jyn, é tudo diferente. Ela só reage ao que acontece ao mundo. O filme começa com ela presa, mas ela não escolhe fugir, como a Rey. Ao contrário disso, é resgatada pelos rebeldes. É levada para a base, onde recebe duas opções que não são opções de verdade: fazer o que eles querem ou voltar para a prisão. Ela poderia se rebelar, fugir, explodir tudo, se matar… Qualquer coisa. Mas ela simplesmente aceita a missão e segue em frente.

Geralmente, este é o ponto que nos difere dos heróis. Nós não temos essa liberdade na vida real. Não podemos simplesmente escolher o nosso futuro. Vivemos condicionados a aceitar praticamente tudo. São poucos os que podem mudar por completo e é por isso que amamos tanto a ficção. Mas… Se a ficção for tão desinteressante quanto a realidade geralmente é? Por que nos interessaríamos?

Seu personagem não precisa ser ativo o tempo inteiro. Ele pode passar uma boa parte da história só reagindo, aprendendo e se desenvolvendo. Mas, em algum momento, ele precisa assumir o protagonismo. Em algum momento, você precisa mostrar ao leitor porque a história do protagonista merece ser contada.

E aí eu chego no Piratas do Caribe. Muita gente acha que o protagonista é o Jack Sparow, que foi brilhantemente interpretado pelo Johnny Depp. Mas o fato é que o protagonista do primeiro longa, na verdade, é o Will Turner, o personagem do Orlando Bloom. Ele é o herói. Ele é bonito e é ele quem fica com a mocinha. A história toda gira em torno dele, mas o personagem do Johnny Depp rouba a cena. Ele era muito mais bem construído, mas bem interpretado e realmente mudava as coisas. Tanto que o próprio diretor notou isso e mudou os rumos da obra ainda no momento da gravação.

É por isso que assistimos um filme que deu muito mais destaque para o Jack do que para o Will. Personagens têm vida própria, principalmente no cinema, onde a criação é dividida entre várias pessoas. Você precisa de sensibilidade para notar e aceitar isso.

Matheus Prado