Muitos autores gastam horas do seu trabalho lidando com coisas como a construção dos personagens, o desenvolvimento do enredo e o worldbuinding, que é o desenvolvimento do mundo onde a história se passa. Todos eles elementos são fundamentais para que você desenvolva uma história concisa e inspiradora, é claro, mas existe um outro item, muito subestimado, que pode significar a diferença entre um grande escritor e mais um clone.

É claro que eu estou falando a “voz própria” do autor.

A voz própria está ligada a muitos elementos e é o principal item quando falamos no estilo que cada autor desenvolve (ou deveria desenvolver). Ela é a junção de elementos como a retórica, o vocabulário, o tom, os pontos de vista, o tamanho dos parágrafos e muitos outros.

É importante ressaltar que, dentro da literatura, podemos falar de voz em dois momentos: quando nos referimos ao estilo do autor e quando nos referimos aos personagens em si. Neste mesmo aspecto, um mesmo livro pode ter várias vozes, quando aborda vários pontos de vistas e vários aspectos dos personagens. A série Crônicas de Gelo e Fogo é um grande exemplo disso.

Mas o que vamos abordar neste texto é a voz do escritor, aquilo que diferencia o terror de Stephen King do terror de H.P. Lovecraft. Aquilo que diferencia a fantasia de Tolkien da fantasia de George Martin. Aquilo que diferencia a prosa de Charles Bukowski da prosa de Ernest Hemingway. E pode apostar que isso vai muito além do que a própria história.

#01 – Encontre o seu Motivo Primordial

Eu gosto de um conceito que já abordei muito em meus artigos chamado Motivo Primordial (também chamado de Ideia Primordial). Por mais subjetivo que ele possa parecer, entender esse conceito te ajuda a entender quem você é o que você realmente espera conquistar com sua própria escrita.

O motivo primordial é aquilo que grita no seu coração e que te faz querer ser um escritor. Mesmo naquelas situações em que tudo te desanima, em que o mundo grita que isso não é para você, o Motivo Primordial te faz parar e pensar: eu nasci para fazer isso e não vou desistir só porque as coisas ficaram difíceis.

Uma boa forma de descobrir esse motivo é entender se existe algum tema ou uma opinião específica sobre o mundo com a qual você se apega e sobre a qual você adora debater. Existe alguma coisa que você já observou ou vivenciou, seja algo físico ou uma experiência psicológica, sobre a qual você quer escrever? Você quer debater temas profundos e fazer o leitor pensar ou você quer apenas divertir e entreter?

As pessoas escrevem por muitos motivos e todos são válidos. Mas entender o seu próprio motivo e as suas próprias intenções também vai te ajudar desenvolver uma voz própria e forte, que também será a base para a formação do seu estilo.

#02 –  Escolha a voz do seu narrador

Essa é uma discussão antiga, longa e profunda. Alguns autores preferem usar a primeira pessoa para narrar suas histórias, enquanto outros preferem a terceira. Não existe um concesso sobre o que é melhor e nunca existirá. Afinal, é possível criar histórias incríveis, com mensagens sublimes e construções ímpares, usando os dois tipos de narrativas.

Alguns livros também alteram esse tipo de narração. Agatha Christie faz isso muito bem em “Os Crimes do ABC”, por exemplo. Mas esse trabalho exige muito domínio das técnicas de narrativa e algo pouco valorizado e compreendido pelos escritores: domínio total sobre a própria história que se quer contar.

Minha sugestão aqui é que você escolha um formato padrão para as suas histórias, que seja sempre o seu ponto de partida. É claro que esse formato pode variar de uma história para outra, mas é importante que você defina o seu “estilo padrão”, porque assim você sempre terá um norte para começar e esse não será mais um problema na sua narrativa.

#03 –  Defina a sua linguagem base

O escritor José Saramago foi um dos grandes autores do século XX. No entanto, ele acaba sendo mais lembrado pelo sei estilo de escrita bizarro do que pelas histórias que desenvolveu. Não sei qual o seu objetivo final, mas tenho certeza de que você não quer ser apenas a pessoa que escreve errado ou que nunca usa pontos finais.

Assim como no exemplo anterior, a sua linguagem deve ser uma ferramenta a serviço da sua mensagem e pode ser adaptar para favorecê-la. Por isso, definir sua linguagem base é uma tarefa necessária, mas esquecida por grande parte dos autores.

Vou usar um exemplo pessoal. Durante anos, eu nunca tive coragem de usar palavras como “pra”, no lugar de “para” e “tá” no lugar de “está”. Eu sentia que isso empobrecia o meu texto. Quando passei a estudar mais sobre comunicação e entrei no mundo da publicidade, entendi que essas palavras e muitas outras tidas como vulgares, na verdade, ajudam a estreitar a relação com os leitores. Isso também valia para palavrões. E nunca os usava, nem mesmo nos diálogos, por medo de soar rude. Mas é fato que há sentimentos que apenas o palavrão certo pode descrever. E, afinal de contas, nós somos brasileiros! Já nascemos com mestrado na arte de xingar.

Então tente definir que linguagem será a sua, por padrão. Você vai usar o português perfeito, corretamente escrito? Você vai usar gírias ao longo do discurso? Você vai alterar a linguagem com base na história e no tipo de personagens? Você vai usar travessão ou aspas para escrever seus diálogos? Gaste algum tempo para pensar nisso tudo.

#04 –  O equilíbrio entre descrição e diálogo

Vamos começar a entrar na polêmica, porque existe uma guerra eterna entre aqueles escritores que fogem das descrições deixam toda a responsabilidade para os leitores, e aqueles que descrevem até os mínimos detalhes, chegando a cansar a audiência em alguns pontos. Há grandes exemplos dos dois lados e, como tudo na escrita, não existe um jeito certo, mas é importante escolher um lugar para começar.

É possível tirar o melhor dos dois mundos. Você pode usar as descrições para dar um panorama sobre uma situação, acontecimento ou lugar, e usar os diálogos para se aprofundar nestas questões. O contrário também é válido. O que importa é fazer isso de uma forma que a história se torne fluida e marcante, sem deixar o público irritado. Esse é um dos pontos mais importantes para a formação de uma voz própria. Afinal, quantas pessoas não se lembram do Tolkien justamente pelas suas descrições precisas e constantes? E quantos pessoas não amam o Aaron Sorkin pelos seus diálogos incisivos e cirúrgicos?

#05 – Escreva o tempo todo

Por fim, a dica mais clichê e, ao mesmo tempo, a mais importante de todas. Você pode não perceber, mas desenvolver uma voz própria leva algum tempo e você não vai fazer isso logo na sua primeira história. Nem na segunda. Nem na terceira. E por aí vai. Dessa forma, quanto mais você escrever, quanto mais se arriscar, mais chances você terá de criar algo novo e incrível.

Reescreva suas histórias pensando em tudo o que falamos hoje. Altere entre a primeira e a terceira pessoa. Mude os estilos, os gêneros e os formatos. Tente retirar todos os diálogos ou escrever usando apenas diálogos. Faça experimentos e testes e não se envergonhe do resultado. Ninguém precisa ler esses rascunhos além de você.

Minha frase favorita sobre escrita é “escritores escrevem”. Repito isso o tempo todo porque muita gente se esquece deste conceito básico e perde horas e mais horas com assuntos bobos, quando poderia estar escrevendo. Escrever muito, acima de qualquer outra coisa, é o único meio comprovado de melhorar a sua escrita e desenvolver sua voz própria. Não subestime isso.

Concluindo…

Teste tecnologias diferentes. Escreva a mão, em blocos de notas ou em cadernos, escreva em computadores, no word ou em softwares específicos para escritores, como o WriteMonkey ou o Scrivener. Se você está tentando escrever um romance, mas se sente travado, experimente passar para um conto. Cresça naturalmente. Você também pode fazer um curso de escrita para se relacionar com outros autores e trocar experiencias.

Muitas vezes, simplesmente deixar a mente vagar e escrever por escrever pode ser uma ferramenta poderosa. Isso permite que você descubra histórias e estilos até então desconhecidos em seu próprio subconsciente.

E não desanime. Pode levar anos e algumas milhares de páginas até que você realmente desenvolva a sua verdadeira voz própria. Por isso, seja paciente com você. Não adianta por o carro na frente dos bois. Isso só vai fazer mal.

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Sobre o Autor

Matheus Prado
Matheus Prado

Matheus é jornalista, escritor e cineasta. Acredita que a vida é um oceano profundo e que devemos nos aventurar muito além da superfície.

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