Seu livro está parado há semanas? Escreva estas quatro linhas antes de fechar o arquivo
O tempo que some no começo de cada sessão de escrita não é falta de disciplina nem de talento. É um problema de anotação, e ele se resolve com quatro linhas escritas na hora certa de parar.
O capítulo onze do seu romance está aberto há cinco semanas. É sábado de manhã e você senta, abre o arquivo, lê o fim do capítulo dez e não reconhece a cena. Então você volta ao capítulo nove para entender o que a sua personagem queria ali. Acha duas inconsistências na linha do tempo. Corrige uma, anota a outra, e a hora que você tinha acabou.
No sábado seguinte acontece exatamente a mesma coisa, porque a correção da semana passada não deixou nenhum registro do motivo que levou você a fazê-la. Ao fim de cinco semanas, duzentas palavras novas e mil palavras reescritas. A conclusão que quase todo mundo tira daí é que falta tempo. Se tivesse uma semana livre, o capítulo sairia. Eu já acreditei nisso por uns bons anos e estava errado.
Quando você escreve, duas coisas existem ao mesmo tempo. Uma são as frases, que ficam salvas no documento. A outra é tudo que você precisa ter na cabeça para escrever a frase seguinte, e que não fica salvo em lugar nenhum.
Nessa segunda categoria entram coisas como: o que a personagem quer nesta cena específica, o que ficou pendente na cena anterior, qual informação o leitor já tem e qual ele ainda não pode ter, e por que você decidiu há três semanas que a irmã só apareceria no capítulo treze.
Isso estava inteiro na sua cabeça no minuto em que você parou de escrever. Cinco semanas depois, sumiu. E como escrever a próxima frase depende disso, você é obrigado a reconstruir tudo antes de digitar qualquer coisa. É aí que vão os seus quarenta minutos.
Dentro de uma sessão de trabalho, escrever custa pouco. Reconstruir o que você perdeu custa quase tudo.
A resposta mais comum para esse problema é aumentar o bloco de tempo. Os retiros de escrita vendem isso, e a indústria das metas diárias de palavras vende a mesma ideia pelo avesso.
O retiro funciona enquanto dura, e por um motivo bem específico: você reconstrói a cena uma vez, no primeiro dia, e depois trabalha dez dias seguidos dentro dela. O problema não foi resolvido, foi escondido. É por isso que tanta gente volta de um retiro com cem páginas escritas e abandona o livro seis semanas depois, de volta à vida em que cada sessão começa do zero.
A meta de palavras é pior, porque mede só o que você produziu na sessão e não cobra absolutamente nada do que você deixou para a sessão seguinte. Você bate as mil palavras e fecha o notebook com a cabeça cheia de informação que vai evaporar até terça.
O roteiro prévio também não salva, e essa é a parte que mais irrita quem planeja muito. Um bom plano de capítulos diz o que acontece. O que falta na segunda-feira não é o que acontece. Falta onde você estava dentro da cena, qual era o problema que você tinha acabado de encontrar e qual informação você tinha decidido esconder por mais duas páginas. Nada disso cabe num plano, porque nada disso existia quando você fez o plano.
01. Pare no meio, nunca no fim
Hemingway1 dizia que o jeito certo de parar é parar quando você ainda sabe o que vem depois. É um conselho velho e quase todo mundo faz o contrário.
Parar no fim limpo de um capítulo parece organizado e é péssimo. Você termina a cena, salva, fecha o arquivo, e na semana seguinte encara uma página em branco com a obrigação de inventar tudo de novo.
Pare no meio de uma frase. Pare com a personagem com a mão na maçaneta. Pare na terceira linha de uma discussão. O desconforto de deixar aquilo pela metade é exatamente o que vai puxar você de volta, e a cena ainda está quente quando você reabre.
02. Deixe quatro linhas no próprio arquivo
Antes de fechar, escreva quatro linhas no fim do documento. Eu chamo isso de bilhete de retomada. São quatro, nunca mais que quatro, e cada uma tem uma função:
- O que esta cena precisa conseguir: Numa frase que diga quem quer o quê. Por exemplo: “Ricardo precisa fazer Raquel descer até o fim do cemitério sem desconfiar.”
- O que o leitor ainda não pode saber quando a cena acabar: Por exemplo: “o leitor não pode saber que a chave do portão está no bolso dele.”
- A primeira ação física do próximo parágrafo: Ação concreta, com corpo e objeto. “Ela tira o sapato e segura na mão.” Não vale “ela fica desconfiada”.
- A dúvida que ficou: Escrita como pergunta de trabalho. “Ela desce porque está com vergonha de recusar ou porque ainda gosta dele?”
Quatro linhas levam dois minutos para escrever e devolvem quarenta na semana seguinte. A diferença de rendimento entre ter e não ter isso no topo do arquivo é grosseira. Levei dois anos de um romance para perceber que os capítulos que andaram foram justamente os que eu tinha interrompido no meio.
03. O bilhete que não funciona
Existe uma versão falsa disso, que quase todo mundo escreve primeiro, e eu escrevi durante muito tempo. É a anotação de intenção:
Capítulo doze: deixar mais tenso. A cena precisa de mais atmosfera. Trabalhar melhor o passado da personagem.
Isso não carrega estado nenhum. No sábado seguinte você vai ter que reconstruir tudo igual, só que agora com culpa por não ter trabalhado melhor a atmosfera.
O bilhete útil parece banal. Ele anota que Raquel continua com os sapatos na mão e que o portão ficou aberto atrás dos dois. Parece bobagem quando você escreve. É exatamente o tipo de coisa que você não consegue reconstruir depois.
Quando você não consegue escrever…
Aqui está a parte que ninguém gosta de ouvir: se você tentar escrever a primeira das quatro linhas e descobrir que não consegue dizer quem quer o quê naquela cena, o bilhete falhou como instrumento de retomada e funcionou como diagnóstico.
Seu capítulo onze não está parado por falta de tempo. Ele está parado porque é uma cena em que três personagens conversam enquanto você espera que alguma coisa aconteça. Não tem operação, não tem desejo em movimento, e nenhuma quantidade de tempo livre vai consertar isso.
Faça o teste agora, com o arquivo aberto:
- Se a cena tem uma operação nomeável, o bilhete resolve e você volta a escrever no sábado.
- Se tem três, ela é três cenas, e duas estão atrapalhando a primeira. Separe.
- Se não tem nenhuma, o problema está na cena anterior, que deixou o livro sem nada pendente. A revisão começa lá, não no parágrafo que você vem tentando salvar há cinco semanas.
Quem já faz isso
Dan Brown corta os capítulos de seus livros em pedaços de quatro ou cinco páginas, quase sempre terminando no meio de uma ação. O leitor acha que é só técnica de suspense, e é também, mas repare no efeito para quem escreve: cada unidade de trabalho é pequena o bastante para caber inteira na cabeça de uma vez.
Tolkien2 levou mais de dez anos escrevendo O Senhor dos Anéis, com interrupções longas, e passou boa parte desse tempo montando cronologias, calendários e mapas que registravam quem estava onde e em que dia. Ele não fazia aquilo só por amor ao mundo. Ele fazia porque precisava reabrir o manuscrito meses depois e saber exatamente em que ponto a história estava.
As salas de roteiro3 de série fazem a mesma coisa com o quadro na parede. Ninguém confia na memória de ninguém de uma semana para outra. Seu romance merece o mesmo tratamento, em escala menor. Quatro linhas num arquivo de texto já são o seu quadro na parede.
Exercício de hoje
Abra o capítulo em que você está travado. Não escreva nada novo. Role até o fim do que já existe e tente escrever as quatro linhas do bilhete, nessa ordem.
Se as quatro saírem, pare por aí e volte no próximo dia de escrita. Você vai sentir a diferença no primeiro minuto.
Se você travar na primeira linha, a causa do impasse já apareceu, e ela não está no calendário nem na falta de uma casa no campo por dez dias.
Depois me conta nos comentários em qual das duas situações você caiu. Essa resposta costuma dizer mais sobre o livro do que trinta páginas de planejamento.
Então é isso. Obrigado pela visita, volte sempre e boa escrita.
Notas
-
O conselho aparece em "Paris é uma festa", nas páginas em que Hemingway descreve a rotina dos cafés de Paris, e ele o repete em entrevista à Paris Review em 1958. A formulação dele é mais exigente que a que uso aqui: parar quando ainda se sabe o que vem depois e não pensar mais no assunto até o dia seguinte. A segunda metade do conselho eu nunca consegui cumprir.
↩ -
O apêndice B de "O Senhor dos Anéis" traz a cronologia da Guerra do Anel dia a dia, com as posições de cada grupo em cada data. Tolkien montou aquilo durante a escrita, como ferramenta de controle, e só depois decidiu publicar junto do romance. Quem escreve livro com várias linhas narrativas simultâneas tem ali o melhor exemplo de registro de estado que a fantasia produziu.
↩ -
A sala de roteiro usa o quadro por uma razão que não vale só para a escrita coletiva: quando a informação está numa parede, ninguém precisa carregá-la na cabeça. Vale testar a versão doméstica disso, com cartões ou post-its ao lado do computador, antes de comprar qualquer software de organização de romance.
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Referências
- BROWN, Dan. Anjos e demônios. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.
- HEMINGWAY, Ernest. Paris é uma festa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.
- KING, Stephen. Sobre a escrita: a arte em memórias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
- LE GUIN, Ursula K. A roda celeste da escrita: um guia para navegantes da palavra. São Paulo: Morro Branco, 2021.
- TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2019.
- VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. 3. ed. São Paulo: Aleph, 2015.