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Matheus Prado
Escrita Criativa

ROMANTASIA: descubra como escrever uma história com estrutura e fazer a magia cobrar o preço do amor

Quando a magia não cobra nada do casal, o leitor sente que está lendo um romance de época com dragões ao fundo. Dá para descobrir isso em dez minutos.

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Há algum tempo, chegou até mim um manuscrito de romantasia1. Era de uma amiga e eu confesso que não estava muito animado, porque não é meu gênero favorito. E, logo que comecei a ler, ainda no sumário, já confirmei minhas espectativas.

Os capítulos ímpares se passavam na corte, com a conspiração que a protagonista precisava desmontar antes do solstício. Os pares se passavam com ela e um rapaz de olhos prateados, na biblioteca, na escadaria e no baile, sempre trocando farpas.

Os dois conjuntos eram bons e a autora realmente sabia armar intriga e escrever diálogos com faíscas. Mas o problema era que, lidos na ordem em que estavam, eles davam a impressão de serem dois livros encadernados juntos por engano.

E aqui está a parte que interessa a você, que talvez esteja escrevendo exatamente isso agora: o problema não era de sincronização. Não adiantava aproximar os pontos de virada nem puxar o romance para dentro da trama política. O problema era mais simples e mais fundo.

A magia não cobrava nada do casal.

O teste mais simples

Se você está escrevendo ou já escreveu uma romantasia, faça este teste. Pegue o seu livro e apague mentalmente a regra do seu mundo. Sem maldição, sem dragões, sem o pacto antigo, sem o sangue que a protagonista descobriu ter. Tira tudo. Depois disso, se pergunte:

O casal continua tendo problema?

Se continua, a sua magia está decorando o livro. O que você tem na mesa é um romance de época com dragões ao fundo, e o leitor vai sentir isso mesmo sem saber explicar.

Se o problema do casal desaparece junto com a regra, a arquitetura está certa. A partir daí, cada avanço da trama fantástica muda automaticamente a situação amorosa, e você nunca mais vai precisar agendar coincidência para os dois se encontrarem.

É isso que eu chamo de restrição única: uma regra do mundo sem a qual o enredo inteiro some, e que é também, exatamente ela, o que impede os dois de ficarem juntos.

01. O que a romantasia de prateleira acerta

Vale estudar os livros mais vendidos do gênero com atenção técnica, e não com desprezo, porque alguns deles resolveram isso muito bem.

Em Corte de Espinhos e Rosas, Sarah J. Maas prende o primeiro volume numa maldição que pesa sobre a corte inteira. Repare no que a maldição faz: ela é o problema político do reino e é a razão pela qual Tamlin não pode contar nada para Feyre. O silêncio dele não é teimosia de personagem nem mal-entendido de novela. É lei do mundo. A frustração amorosa é produzida pela mesma coisa que produz a trama.

Mais adiante na série, a barganha que Feyre fecha com Rhysand2 faz isso de modo ainda mais visível. Um contrato mágico que obriga os dois a conviverem uma semana por mês. A proximidade deixa de ser escolha dos personagens e passa a ser regra, o que é muito mais interessante do que qualquer encontro casual na biblioteca.

Em Quarta Asa, Rebecca Yarros usa uma regra mais brutal. O lugar onde a Violet entra mata candidatos como rotina, os dragões escolhem quem querem, e o corpo dela é frágil de um jeito que a própria instituição transforma em sentença de morte. Xaden carrega uma causa que exige ocultação permanente.

O resultado é que qualquer conversa banal entre os dois carrega consequência militar. O livro não precisa de capítulo alternado, porque não existem duas tramas para alternar.

02. O erro que todo mundo comete

Agora o defeito mais comum do gênero, e eu vejo isso em quase todo manuscrito que me chega.

É o vínculo de almas predestinadas3. O par ligado por destino, marca, aroma, chama gêmea, o nome muda de livro para livro e a função é sempre a mesma.

Parece conveniente, porque instala intensidade sem trabalho nenhum de construção. O efeito, porém, é o contrário do que você quer: um vínculo que já determina o par informa o leitor do final na página em que aparece. Depois disso, só resta adiar.

Guarde a diferença abaixo:

  • Restrição cria obrigação sem dizer como termina. Maldição, barganha, dívida, segredo que mata, nome verdadeiro em poder de outro.
  • Garantia diz como termina logo de cara. Almas gêmeas, profecia do par, marca de destino.

Restrição produz tensão, enquanto garantia produz espera. Se o seu livro tem garantia, o leitor passa trezentas páginas esperando acontecer o que ele já sabe que vai acontecer.

03. Inverta a ordem de invenção

Aqui está a causa, lá no começo do processo, de boa parte dos manuscritos travados.

O escritor de fantasia constrói primeiro o sistema. Faz as castas, os metais, os reinos, as interdições, a história de mil anos. Depois instala um casal lá dentro e espera que o atrito apareça sozinho.

O atrito não aparece sozinho. Quase nunca.

Faça o contrário. Decida antes qual impedimento afetivo interessa a este livro, com alguma precisão, e só então invente a regra do mundo que produza esse impedimento necessariamente.

Alguns exemplos para você ver o mecanismo funcionando:

  • alguém que não pode ser tocado sem que a memória do outro se apague;
  • alguém cujo nome verdadeiro é a moeda de uma dívida antiga, e quem o pronuncia assume a dívida;
  • alguém que só existe enquanto outra pessoa se lembra dele;
  • alguém que precisa mentir sobre a própria origem para continuar vivo, numa corte em que a origem de todo mundo é documento público.

Repare que qualquer uma dessas regras dá origem a um enredo político inteiro, porque regra assim sempre interessa a quem manda. Você ganha trama e obstáculo na mesma invenção, em vez de construir os dois separados e tentar costurar depois.

04. Dois casos que valem olhar

Crepúsculo é fácil de desprezar e tecnicamente mais esperto do que parece nesse ponto específico. O que o Edward é determina o que ele pode fazer com a Bella. O impedimento não é familiar, não é social, não é de temperamento: é a espécie dele. A primeira metade do livro inteiro se sustenta nisso, sem precisar de nenhum obstáculo externo.

Os Sete, do escritor brasileiro André Vianco, usa a mesma lógica num registro brasileiro e mais sombrio. A condição dos vampiros é simultaneamente o motor da trama e o que envenena qualquer vínculo que eles tentem manter com os vivos. A regra do mundo cobra o preço em cada relação do livro, e não só no casal central.

É isso que você quer alcançar. Não que a magia esteja ao fundo, bonita, enquanto o romance acontece na frente. Que ela esteja dentro do romance, cobrando.

05. O procedimento em quatro passos

Se você tem um projeto na mesa agora, isso cabe numa tarde:

  • Escreva em uma frase a regra do seu mundo que, se removida, acaba com o enredo. Se você precisar de mais de uma frase, essa regra ainda não existe, e esse já é o seu achado do dia.
  • Escreva em uma frase o que impede o casal de ficar junto hoje, no capítulo exato em que o livro está parado.
  • Compare as duas frases. Se elas descrevem fatos independentes, você tem dois livros. Um deles vai ter que ser refeito a partir do outro.
  • Reescreva a segunda frase como consequência da primeira e só então volte à escaleta, marcando quais cenas perderam a função.

O passo quatro costuma eliminar capítulos inteiros. Dá medo. É exatamente o sinal de que você acertou.

Antes que alguém reclame…

Vou dizer uma coisa que não é popular nos grupos de escritores sérios: a romantasia é tratada com um desdém que quase nunca se aplica à fantasia épica, embora boa parte da fantasia épica opere com esquema tão previsível quanto o pior livro do gênero vizinho, e às vezes com prosa pior.

Minha objeção ao desprezo é técnica, não é gentileza. Montar um livro em que a regra do mundo e o impedimento afetivo sejam a mesma coisa é mais difícil do que organizar uma guerra em três frentes, porque exige que cada invenção pague duas contas ao mesmo tempo. Quem está fazendo isso com seriedade está resolvendo um problema estrutural de primeira grandeza.

E se você é da turma que torce o nariz, faça o teste no seu próprio livro de fantasia antes. Costuma ser humilhante.

Como terminou a história do manuscrito?

Eu não sugeri que minha amiga cortasse o romance e nem que ela reforçasse a trama de corte. Na verdade, fiz apenas uma pergunta:

O que acontece com o rapaz de olhos prateados se a conspiração for desmontada?

A autora respondeu que “nada acontece, porque ele é de outra linhagem e está ali por outro motivo”. Foi nesse momento, com nós dois olhando a mesma folha, que ficou claro que a linhagem dele precisava ser justamente a coisa que a conspiração dependia de esconder.

Assim, o livro encurtou em quarenta páginas e começou a andar.

Exercício de hoje

Pegue o seu projeto e escreva as duas frases do passo 1 e do passo 2. Só isso, nada mais. Depois responda para você mesmo:

Se eu apagar a magia deste mundo, o meu casal ainda tem problema?

Se a resposta for sim, você descobriu hoje por que o livro não anda. Me conta nos comentários qual era a sua regra do mundo e qual era o impedimento do casal, que eu quero ver quantos de vocês vão cair na mesma armadilha que eu caí no meu primeiro livro de fantasia.


Então é isso. Obrigado pela visita, volte sempre e boa escrita.

Notas

  1. O termo romantasia é o que pegou no Brasil e é como o gênero aparece nas livrarias daqui. Em inglês se usa romantasy, mas não há razão para importar a palavra quando a nossa já circula.

    ↩
  2. A barganha de Feyre e Rhysand é um bom modelo de estudo porque é visível: existe um acordo, com cláusula e prazo, que o leitor consegue enunciar. Quando o seu impedimento não cabe numa cláusula desse tipo, geralmente ele ainda não está construído.

    ↩
  3. Uma ressalva ao que digo sobre almas predestinadas. O dispositivo pode funcionar quando o livro o usa como ponto de partida, e não como promessa de final, por exemplo quando o vínculo é imposto contra a vontade dos dois e o enredo trata de desfazê-lo. O defeito está em usá-lo como garantia de desfecho.

    ↩

Referências

  • EGRI, Lajos. A arte da escrita dramática: os fundamentos da criação de personagens e do texto dramático. São Paulo: É Realizações, 2019.
  • MAAS, Sarah J. Corte de espinhos e rosas. Tradução de Mariana Kohnert. Rio de Janeiro: Galera Record, 2015.
  • MEYER, Stephenie. Crepúsculo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
  • REEDSY. How to write romantasy in 7 steps. Reedsy Blog. Acesso em: 3 out. 2026.
  • TRUBY, John. A anatomia da história: 22 passos para se tornar um mestre escritor. Curitiba: Arte & Letra, 2017.
  • VIANCO, André. Os Sete. São Paulo: Novo Século, 2005.
  • YARROS, Rebecca. Quarta asa. Tradução de Laura Pohl. São Paulo: Planeta Minotauro, 2024.
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