Como escrever sobre o livro que você acabou de ler: o guia da resenha que ensina ofício ao escritor
A nota de cinco estrelas no aplicativo não guarda nada aproveitável para o seu capítulo onze. Quem escreve ficção precisa de um segundo texto sobre cada leitura, com spoiler, verbo de operação e número de página.
Você terminou o livro numa quinta à noite, daquelas em que o capítulo seguinte começa antes de você decidir se vai continuar. Abriu o aplicativo onde registra as leituras, deu cinco estrelas e escreveu três linhas: história envolvente, personagens bem construídos, recomendo, sem spoiler. Três semanas depois você estava parado no capítulo onze do seu romance, com uma cena que precisava terminar em suspensão e insistia em terminar resolvida, e não conseguiu lembrar de nada do que aquele livro fazia com os fins de capítulo. O livro atravessou você inteiro e não deixou uma linha aproveitável no seu caderno.
A sua memória não tem culpa. O texto que você escreveu sobre a leitura foi desenhado para ajudar outra pessoa a decidir se compra o livro, e cumpre essa função direito. Quem escreve ficção precisa de um segundo texto sobre o que leu, feito para ser consultado meses depois, com a sua própria cena aberta ao lado. Esse segundo texto leva vinte minutos, não pede nota nem recomendação, e é dele que este artigo trata.
01. Dois textos diferentes sobre o mesmo livro
A resenha de consumo responde a uma pergunta só, que é se o livro vale o dinheiro e as nove horas de quem está decidindo. Para isso ela precisa de verdade de uma nota, de um aviso de gênero, de uma comparação com títulos parecidos e do cuidado de não contar o que acontece. Toda a cultura de leitura brasileira dos últimos quinze anos, do Skoob ao booktube, refinou esse formato até ele ficar muito bom no que faz. Eu publiquei dezenas de textos assim aqui no site, e a resenha que escrevi de A Cidade dos Milagres começa com uma pergunta genérica sobre grandeza humana e termina dizendo que a proposta era interessante e a execução superficial. Está tudo correto ali, e não há uma frase que eu consiga usar hoje para resolver um problema de capítulo.
O registro de leitura responde outra pergunta, que é como aquilo foi feito. Ele é escrito para um leitor só, você, e por isso pode ser telegráfico, feio, sem adjetivo nenhum e cheio de spoiler. Spoiler, para quem escreve, é material de trabalho, porque a maquinaria de um romance policial está inteira no que o livro esconde e na página em que ele para de esconder. Um registro sem spoiler é um registro que não descreve o livro, e esse é o primeiro hábito da leitura de consumo que você precisa abandonar quando senta para estudar.
Vale dizer de onde eu discordo, porque o formato dominante de orientação sobre isso vem do conteúdo anglófono de escrita criativa e chegou aqui quase sem tradução crítica. O guia de resenha do The Write Practice, escrito por Sue Weems, recomenda o método do biscoito recheado, que é começar com um elogio, inserir no meio a dúvida ou o incômodo e fechar com outro elogio, e recomenda também não resenhar livro que você avaliaria abaixo de três estrelas. As duas orientações são sensatas para quem publica em loja e em rede social, onde existe autor vivo do outro lado lendo. Como protocolo de estudo, a primeira transforma a observação técnica em gentileza e a segunda joga fora exatamente os casos mais instrutivos, pelo motivo que eu desenvolvo na última seção.
02. O que entra no registro de leitura
O registro tem cinco entradas fixas, e a disciplina está em escrever as cinco mesmo quando você só tem vontade de escrever a primeira. Eu uso caderno de papel para isso, com uma página por livro, porque arquivo de texto convida a escrever demais. As entradas são curtas de propósito, já que registro longo nunca é relido. Elas ficam assim:
- Título, autor, a edição que você leu e o número da página que te pegou.
- A cena ou a passagem, resumida em duas linhas, contando o que acontece de fato.
- O que o texto faz ali, escrito em verbos de operação, do tipo omite, antecipa, corta, repete, nomeia, atrasa.
- O que o texto se recusou a fazer naquele ponto, que quase sempre é a informação que você teria dado.
- Três linhas de tentativa, aplicando a mesma operação a uma cena do seu livro, com o número do capítulo.
A terceira entrada é a que separa o registro útil do caderno de frases bonitas. Em O assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie trabalha com um narrador em primeira pessoa que mente por omissão, e o registro inútil diz que o final é genial e surpreendente. O registro útil anota a frase exata em que o narrador conta ter feito o pouco que havia a fazer sem dizer o que fez, anota que o texto cobre esse buraco colocando logo depois uma informação nova e mais atraente, e anota que o leitor segue a informação nova e não volta para cobrar a anterior. Isso é uma operação, com nome e localização, e você pode testar na sua cena de hoje à tarde.
Pegue agora Os sete, de André Vianco, que é um livro de 2000 e tinha um problema concreto de instalação do sobrenatural, que era pôr vampiros num litoral paulista reconhecível sem que o leitor risse. O registro que vale anota em que página a palavra que nomeia a criatura aparece pela primeira vez, quanto texto o livro gasta antes disso com gente trabalhando e com procedimento comum, e quanta evidência física o leitor recebe antes de qualquer explicação de mitologia. A operação se chama atrasar a nomeação enquanto se adianta a evidência, e quem escreve terror no Brasil hoje precisa dela. Vianco resolveu esse problema num livro que eu não vi ser discutido pela crítica literária da época e que formou uma geração de leitores de fantasia nacional, o que é um dado sobre o ofício dele.
Em O código Da Vinci, Dan Brown faz uma coisa que dá para medir com um lápis. Os capítulos são curtos, muitos deles com quatro ou cinco páginas, e o corte acontece antes da resposta da pergunta que o próprio capítulo acabou de formular, com a resposta chegando capítulos adiante, depois de o livro ter aberto outra pergunta em outra linha narrativa. O registro anota o número de páginas por capítulo, a posição do corte e a distância até a resposta, porque esses dados você transporta para o seu romance sem transportar nenhuma frase do Brown. Foi assim que eu descobri, num livro que eu havia avaliado mal, que os meus capítulos terminavam todos no mesmo lugar, que era logo depois da cena resolvida.
O registro não pergunta se o livro é bom. Ele pergunta o que o livro fez na página quarenta e sete, com quais palavras, e o que aconteceria se você fizesse igual no seu capítulo seis.
Note que nada disso depende de você ter gostado da leitura, e nada disso aparece numa resenha de consumo, porque o comprador não tem uso para contagem de páginas por capítulo. A distância entre o seu registro e a sua resenha é a distância entre estudar e comentar, e as duas coisas podem conviver no mesmo mês, em cadernos separados. Eu mantenho o hábito de escrever o registro antes de qualquer comentário público, porque o comentário público me deixa esperto e o registro me deixa útil. Quando você já tem uma pilha de registros, a releitura deixa de ser nostalgia e passa a ser consulta, e aí vale combinar isso com o método de reler semanas depois a página que ficou na sua cabeça, que trata do tempo certo dessa segunda passagem.
03. O livro que você detestou e o que você abandonou no meio
Quando você lê um livro que te domina, a maquinaria fica invisível, porque é justamente para ficar invisível que ela foi montada. O livro que te irrita faz o contrário, ele mostra a engrenagem com o painel aberto, e você consegue ver a emenda, a pressa, a troca de informação mal feita e a cena que existe só para transportar o personagem de um lugar a outro. Stephen King trata disso em Sobre a escrita, quando observa que a prosa ruim ensina com mais clareza o que evitar do que a prosa boa ensina o que imitar, e que ler autor medíocre faz parte da formação de quem escreve. 1
É aqui que a regra de não resenhar livro de duas estrelas custa caro. O livro que você avaliou mal é aquele em que você tem acesso simultâneo ao efeito pretendido e ao efeito obtido, e nenhum livro bem resolvido oferece essa comparação, porque nele os dois coincidem. Na prática o registro ganha uma sexta entrada quando a leitura foi ruim, que é uma frase sobre o ponto exato em que o efeito falhou, e essa frase vale meia hora de oficina. Foi lendo mal um romance de suspense comprado em aeroporto que eu entendi por que o meu segundo capítulo não assustava ninguém, e nenhum livro de que eu gosto teria me mostrado aquilo.
O livro abandonado é o caso extremo e o mais honesto, porque ele tem uma data e uma página. Quando você para na página sessenta e dois de um romance de fantasia, você acabou de produzir um dado experimental sobre contrato de leitura, e o dado é gratuito. Vale anotar o número da página junto com o que havia acontecido de acontecimento até ali, e vale anotar separadamente o que o livro vinha prometendo nas páginas anteriores. Quase sempre a resposta é que nada tinha acontecido ainda e que o livro vinha prometendo mundo em vez de prometer problema, e o seu capítulo um faz a mesma coisa, só que no seu você não enxerga. 2
Há um ponto em que eu fico cismado com o uso da leitura ruim como estudo, e é honesto dizer qual. Ler mal em quantidade grande estraga o seu ouvido, e isso acontece rápido em quem está escrevendo o primeiro livro e ainda não tem frase própria firme. A proporção que funciona comigo é um livro ruim a cada cinco que eu leio para valer, sempre com o registro escrito no mesmo dia, nunca com dois seguidos. Quem está formando repertório precisa ouvir prosa boa a maior parte do tempo, e disso trata a leitura dos autores que você admira, que é outra operação com o seu próprio jeito de ser feita, como discuti ao destrinchar os tipos de lição que a página de um autor admirado oferece.
Uma última diferença que importa na prática: o registro trata de livro publicado, de gente que você não conhece, e por isso pode ser cruel sem custo nenhum. O texto que você escreve sobre o original de um amigo obedece a outras regras, porque lá existe uma pessoa esperando, e as perguntas que você faz a quem leu o seu próprio livro são de outra natureza, assunto que eu tratei em cinco perguntas que extraem fato em vez de elogio. Confundir os dois formatos é o erro mais comum de quem começa a estudar escrevendo sobre o que lê, e o resultado costuma ser um amigo magoado junto com um caderno vazio. Na dúvida, guarde a crueldade para o caderno e mande ao seu amigo apenas a descrição do que a página dele fez com você.
Hoje à noite, pegue o último livro que você terminou, aquele que ainda está na mesa. Abra na página que você marcou, escreva as cinco entradas do registro, com spoiler, sem nota e sem recomendação, e gaste as três últimas linhas aplicando a operação a um capítulo específico do seu original. Deve dar uma página de caderno e vinte minutos, e se o seu registro tiver ficado com menos de três operações nomeadas em verbo, você ainda está comentando o livro e vale escrever de novo olhando só para a página. Cole o resultado nos comentários, com o nome do livro, que eu respondo apontando o que ainda ficou no registro de consumo. Obrigado pela visita e boa escrita, que a formação do escritor se faz nesse tipo de serviço miúdo.
Notas
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A observação está na parte de Sobre a escrita em que King discute a leitura como formação. Parafraseio a ideia em vez de citar a tradução brasileira, porque não tive a edição em mãos para conferir a frase exata.
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O número da página é só exemplo. O que importa no registro do livro abandonado é a anotação feita no mesmo dia em que você fechou o livro, porque anotação feita uma semana depois já virou opinião sobre o conjunto.
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Referências
- BROWN, Dan. O código Da Vinci. Tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook. Rio de Janeiro: Arqueiro, 2025.
- CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: cadernos de análise literária. São Paulo: Todavia, 2024.
- CHRISTIE, Agatha. O assassinato de Roger Ackroyd. São Paulo: Globo Livros, 2014.
- KING, Stephen. Sobre a escrita: a arte em memórias. Tradução de Michel Teixeira. São Paulo: Suma, 2015.
- VIANCO, André. Os sete. São Paulo: Novo Século, 2000.
- WEEMS, Sue. How to write a book review: the complete guide. The Write Practice, [s. d.]. Disponível em: https://thewritepractice.com/how-to-write-a-book-review/. Acesso em: 28 out. 2026.